Sábado, 15 de Maio de 2010


Quero sair daqui. Quero sair daqui e abrir a porta de casa, quero abrir a porta de casa e surpreender-me com a rua, assustar-me com a rua a transbordar de Sol, e cegar de encontro ao Sol, e trazer a mão à frente que me tapa do Sol, uma e outra vez, a todas as horas de todos os dias de todos os anos de todas as vidas que me foram concedidas. Quero sair daqui e abrir a porta de casa, quero sair daqui e saber-me de novo em casa, fechar a porta, abrir a porta, fechar a porta e abrir a porta, fechar a porta sem ter medo de que o mundo lá fora me fuja outra vez, e desta vez para sempre, por debaixo de um grande par de asas.

Quero abrir a porta e descer as escadas, percorrer o corrimão com a direita, volver no fim do primeiro lanço, percorrer o corrimão com a esquerda e sentir o ferro quente aos trinta e cinco graus de temperatura. Quero descer as escadas e abir o portão empenado e sonhar com o dia de o ter arranjado, e quero abrir o portão e deixá-lo encostado e descer a rua em direcção ao café do Senhor Luís, do Senhor Luís que há-de estar sempre à minha espera, como o mar que nunca deixa a praia, no preciso lugar onde ainda ontem o deixei, fazem hoje trinta e cinco anos. Quero descer a rua e sentir os muros e as pedras da calçada que me falam em Português. Quero descer a rua e sentir o Sol tisnar-me a pele, quero descer a rua e não ter pressa, pensar nos pais do Miguel e sabê-los ainda aqui, mesmo sabendo-me já tão velho, porque talvez ainda os encontre, talvez estejam no café que já lá não está, talvez ainda por aqui morem, porque agora, e mais do que nunca, preciso deles e daquele abraço, daquele conforto e daquela palavra amiga, e por segundos ser de novo um filho e não mais professor-enfermeiro-bombeiro-escritor-director à procura de justificar perante o mundo o que só do mundo é a culpa, porque nada mais há para justificar quando tão pouco se tem para viver.

Quero descer a rua e sentir os muros em Português e saber que nada de mal me pode acontecer. Este é o meu casulo, esta é a minha casa, a mesma à qual dediquei anos e fundos, fundos e mundos, mantendo-a, limpando-a, conservando-a uma vida inteira à espera do dia em que tu, mãe, regresses a casa, mais à Joana e à Susana e o meu pai, sempre o meu pai, uma vida inteira para que não estranhem quando um dia voltarem, quando um dia abrirem a porta de casa, com as mesmas chaves, uma vida inteira só para vos dizer: “estão a ver?, tudo no mesmo lugar, ó mãe, o que é que há para jantar?”

Por isso percorro a rua, e abro a porta de casa, e volto, tantas vezes quantas forem precisas, uma e outra vez. E mesmo sabendo que tal mundo não existe senão na minha cabeça insisto em voltar, e uma e outra vez percorro os mesmos passos sem me cansar de esperar, porque agora estou de volta a casa e nada de mal me pode acontecer.

Tenho medo. E conquanto tenha medo saberei chegada a hora de voltar. Porque de nada nos vale o dinheiro uma vez chegada a hora. Por isso o regresso aonde um dia tudo começou, à procura de um ponto de apoio, de uma voz amiga que me ajude a perceber porque é que tudo o que começa um dia tem um fim. E talvez nem o perceba quando o dia chegar. Talvez nem o peceba senão quando um dia ouvir umas chaves na porta e jurar, de mim para mim mesmo, que a minha mãe está de volta.

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