Quinta-feira, 3 de Abril de 2008


Mergulhar pela sala adentro sem barbatanas ou guelras, em apneia à espera de voltar ao lugar da terra, pelo menos a julgar pelo teor de cloreto, e outro tanto de sódio, presentes no interior da mesma. Pela escotilha distinguira-os: ao chefe, defronte, e à Kelly, de costas, um diante do outro, sentados à mesma mesa, (de café? chá!) os dois a conversar, como bons amigos, não fosse não o serem e pouco se falarem.

O caso da Kelly é, no mínimo, paradigma das leis de trabalho neste país e de como as mesmas não são por demais torcidas porque o frio é muito e trabalhar aquece: a Kelly esteve de baixa semana sim seguida de semana não para quem conta os últimos dois anos. Pode fazê-lo, porque recebe o vencimento por inteiro. Sem cortes, ou correcções, todo o dinheiro, sem explicações. Aliás, em tudo semelhante ao país de Portugal, onde quem adoece não esquece como se fazem e refazem as contas das mil e uma noites e outras tantas formas de trazer o pão à mesa quando se recebe apenas sessenta por cento do ordenado. Leis do trabalho diligentes? Ou pura inequidade, garantindo assim, a quem por lá fica, toda a história de quem se conhece dentro do buraco sem saber sonhar sair dele?

Não pretendo com isto defender um trabalhador quando o mesmo não faz juz à qualidade da palavra que assim o define, mas devo realçar como no mesmo se deposita um princípio de confiança em tudo maior e mais distante do nosso. Até porque o caso da Kelly terá sempre como desfecho final a queda de mais uma espada e o derrubar de outra árvore, agora tão desamparada como desempregada, e nesse campo seremos todos concomitantemente razoáveis e iguais.

De facto, assim era o tema da conversa corrida quando pela sala de rompante entrei. Incómodo e incomodado, não foram precisos dois segundos para me entender no lugar errado à hora errada enquanto uma troca de olhares solicitava uma desculpa esfarrapada e a saída imediata do espaço da sala-de-aula

“engoli uma mosca,...”, disse

e saí, maldizendo a estúpida sorte de quem sofre de uma inteligência torpe. Torpe, mas não trôpega, porque tendo presenciado à Kelly as reinvidicações de quem não pretende ajudar a escola trazendo os pratinhos dos meninos doentes de volta à cantina, apenas porque tal função não lhe pertence nem tão menos está descrita ou por ela assinada, compreendia agora como a falta de algum bom-senso pode em tudo rebentar na cara, ainda para mais quando os fios soltos conseguem ser mais que os presos. Basta puxar por um e assistir, sentado a um canto numa longa cadeira de baloiço, à queda abrupta do emaranhado presente.

Assisti assim a uma queda e, não bastando, à desesperança, porque não contente com o erro de manhã cumprido, logo tratei de o repetir quando a sala dos assistentes arrombei, no caminho de mais uma das minhas fúrias organizacionais, para dar de caras com a Kelly em pranto, de joelhos entornados pelo chão no meio da roda das três comadres da morte, e eu, declaradamente culpado, a correr para a saída tão depressa como para a entrada, novamente por dentro dos meus cinco anos e numa fuga tão desenfreada como vã ao calduço que a minha mãe ainda hoje prega com energia por esta nuca adiante e pelas escadas abaixo, numa queda tão ruinosa como ruidosa na direcção da rua.

Serviu-me tudo isto de emenda e palmatória, e de texto de revisão para essa outra história que é e que foi a minha, numa outra hora de pouca glória e menos sorte, nos tempos durante os quais habitei num país onde, felizmente, já não nos despedem porque somos nós quem nos despedimos, dizendo adeus às mãos sem escrúpulos, ignorantes desse conceito moderno dado pelo nome de contrato, e por isso crentes na possibilidade de alimentar uma nação à força do açoite e do chicote e da falta de rede na forma do recibo verde.

Talvez afinal tenham razão, mas não serei eu, em toda a certeza, a confirmá-la.

Sábado, 29 de Março de 2008

O guarda-chuva

Dissessem-me há três anos atrás sobre os destinos a dar a este guarda-chuva, ferido numa asa, partido numa pega, deserto e abandonado num canto de uma sala de aula numa escola de enfermagem, e eu decerto não acreditaria. Nem tal sonhava. Dentro de mim procurava apenas dar resposta a uma necessidade prementemente económica: alguém, tu, partiu o guarda-chuva num encontro desigual com o vento fortuito de todas as esquinas num dia de Inverno, e trazendo os bolsos revestidos de dinheiro suficiente para a aquisição de igual cobertura, apressou-se a deixar entregue à sua sorte uma família inteira de varetas, pano xadrez com tonalidades de vermelho e verde e pega recolhível, à saída de mais uma dessas aulas cujo brilhantismo recebe como única e justa paga conjuntos completos de copos de plástico, jornais gratuitos e um guarda-chuva inútil, espectadores feitos atentos e esforçados, sujeitos que estão à vontade anemófila, de resto inútil quando as janelas se encontram fechadas.
Pois a ti me confesso: fui eu, fui eu quem levou o guarda-chuva que um dia não quiseste. A pobreza será sempre uma das artes do disfarce, e eu não tinha nem o dinheiro nem tão menos os escrúpulos, e um guarda-chuva faz sempre falta.

Hoje olho para trás, por detrás do ombro, e pergunto a mim mesmo, de joelhos, lá atrás, avaliando tão preciosa descoberta, "imaginas tu um destes dias teres de o abrir porque está a chover nas ruas de Londres?". Não, não imagino, respondi, nem tão menos compreendo, porque ainda falta tempo, e eu não só não te conheço como não acredito em estranhos, especialmente os do género capaz de predizer o futuro!
Disappointed, trouxe a capa até aos ombros, apertei-a e abandonei-me no meio da sala. Não vale a pena, nada vale a pena senão a pena de esperar pelo porvir e pela razão que há-de ser.
Quanto a mim, há três anos atrás trouxe o guarda-chuva até à terra, deixei-o a meu sogro e aos seus bons cuidados, imobilizou-se uma asa, engessou-se uma pega, curou-se uma alma e fez-se uma festa. No entanto, a medo da descoberta de tão familiar resguardo, nunca mais trouxe o dito à escola, deslocando-me à chuva, andando ao frio, vivendo desde então a desonra do vento.
Hoje não. O dinheiro, hoje, já não faz falta. E para além deste herói, personagem central de toda a história,tenho, pelo menos, outros três guarda-chuvas, imãos robustos, primos vistosos, mas todos em casa, trancados no armário e ainda por estrear.
Porque hoje está a chover e percorro as ruas de Londres, e não consigo deixar de trazer e mostrar, a quem queira ver, como só se molha quem assim quer, e vergonha não é não ter dinheiro, vergonha é andar à chuva sem querer, e só se constipa quem tudo tem sem ao certo saber

soletrar no ar o verbo perder.

Terça-feira, 25 de Março de 2008

O Frio

Vivo num país onde o sol parece teimar em não cumprir os meus desígnios. Se é porque é Inverno, então é porque é Inverno, e já batem as quatro, e é de tarde, e o sol não mora mais senão quando o dia seguinte chegar. E se é Verão, então é porque é Verão e ainda são cinco, e da manhã, e já o mesmo insiste em chocar defronte e de rompante, vermelho, astro flamejante a queimar as persianas dos olhos, numa súbita combustão alarmante, dando-se a apresentar, a quem não o conhece, como quem vem para mais não deixar dormir todos quantos sonham com tão ousada perspectiva.
Vivo num país onde o Sol parece brincar aos polícias e ladrões, de pistola e bisnaga em punho, em duelo diante dos mais audazes e capazes de resistir à tentação pacificadora desta loucura e redenção, porque não nos aquece nem arrefece, e é perfeitamente inútil quando qualquer lâmpada de sessenta watts faz as suas vezes dentro de uma casa, conquanto haja amor e calor para dar.
Vivo num país e afinal descubro estar a viver noutro: num repente acordo e estou de volta à Suécia e só então compreendo quão perto estou eu do Norte, e como é culpa minha este desnorte, sinal precoce e polar de quem descobre toda a razão para o frio, de bater o dente e fiar fino o mais agasalhado e hirsuto bretão.
Vivo num país cujo clima padece de um sentido de humor tão ictérico como o Sol que traz às costas, para mal dos pecados de quem os comete, condenando assim ao eterno arrependimento o mais comum dos penitentes.
Pois a mim não dá vontade para rir. Não consigo, doem-me os dentes, principalmente os da frente, numa dor incisiva que não brinca nem mente. E dou por mim mergulhado num mar de cachecóis e casacos, gabardines e guarda-chuva, desbravando caminho apenas com o nariz de fora, construindo um horizonte de odores enquanto indago a narizes vizinhos sobre qual o melhor trilho para o trabalho: vernacular pôrra!, está frio!

Valha-nos a mudança de hora no fim de semana que se abeira, para repor um pouco de ordem e bom-senso às mentes por aqui conservadas a menos cinco, mais ou menos o mesmo número de meses pelos quais o Inverno insiste habitar em paragens de sua senhora majestosa, altiva e distinta, escultura de vidro dada pelo nome de Inglaterra e cujo mote se faz de uma colina de vento e um punhado de gelo atirado à cara, pelo menos a julgar pelos jeitos ritmados destes joelhos ao encontro um do outro, todas as manhãs na paragem de autocarro.

Segunda-feira, 3 de Março de 2008

Um livro que se avizinha

para quem procura um pouco mais de food for thought, estou a preparar um livro num site paralelo, cujo link se apresenta na lista ao lado, mas que aqui igualmente exponho:

www.asfabulasdaflorestaverde.blogspot.com

as fabulas da floresta verde e, nao so, previsivel, como inevitavel e, melhor de tudo, disponivel, por isso porque nao?

um grande abraco e beijos a todos num teclado ingles,

joao andre

Sábado, 23 de Fevereiro de 2008

A 'nha casa - aqui vou ser feliz
































































































































































































































































































































































Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

Já o Vicente é o primeiro a dizer: "a ti, quando te dá, o que vale é que te dá com força!", explicando assim as bruscas mudanças de atitude que, de tempos a tempos, varrem estas planícies africanas, com grandes e largas vassouras de fogo em movimentos ritmados, contínuos e incessantes, junto ao solo e da esquerda para a direita, renovando a vida que está feita, rompendo os novos horizontes e trazendo as novas à vida. Frutos da fúria meu amigo, porque para tudo há uma razão, mesmo se nem tudo nos pareça razoável.
Mas tudo tem uma razão, e essa razão começou no dia cinco de Setembro, quando pela primeira vez coloquei estes dois pés, que comigo transporto, dentro daquela que foi a minha casa por cinco meses e, por demais, alguns dias. Pudesse eu imaginar e antecipar e sabe deus quanto sofrimento poderia ter poupado ao mundo. Mas a minha situação, por demais frágil, por certo incerta, outra coisa não poderia pedir senão um tecto e uma cama, premissa primordial para toda e qualquer conquista.
"Não penses que vens para cá para ser rico" é, sem dúvida, das primeiras frases que recordo. Pudesse eu imaginar os modos como este homem me marcou e, decerto, teria pensado duas vezes antes de abrir a porta.
Igualmente, erro meu, o de nunca lhe ter dado resposta, fosse a circunstância que fosse. Provavelmente porque ainda está para nascer a mulher que há-de cumprir tal tarefa, para receber em seguida a promessa de um céu eterno. Talvez porque toda e qualquer resposta minha careceria de uma noite passada ao relento, juízo final e único para todas as tentativa de usurpação do poder que se instituí dentro das casas que não são as nossas. Baixar a bolinha e amochar foi sempre o lema do emigrante periclitante. Afinal, muito havia por fazer.
"Não penses que vais arranjar emprego na tua área", outra frase-chave, a partir da qual qualquer um começa a perguntar-se até que ponto estão a meter o dedo dentro de uma panela que não é a sua, o dedo e a colher a provar, colher judiciosa e reprovativa num franzido de nariz e de rosto. Resultado prático: venho eu para aqui e a pagar e começo desde cedo a ter de justificar a minha presença, os meus feitos e os meus propósitos, factores suficientes para me sentir não como um mero hóspede e fonte de rendimento, mas como mais uma responsabilidade e um peso nos ombros: meu caro senhor, eu não pedi para ser responsabilidade de ninguém, e é precisamente para não ser responsabilidade de ninguém que aqui estou diante dos seus cansados e venerandos olhos. Trago dinheiro no bolso e uma mão cheia de projectos, posso e pretendo ficar por três meses e, uma coisa lhe digo, África estará sempre à espera, por isso não se rale comigo, porque antes de estar ralado comigo, ainda tem à sua frente toda uma família e todos os amigos, e à cabeça destes o meu amor desesperado, plantado no aeroporto de Lisboa, ainda a acenar o lenço e a face cheia de lágrimas como num dia de chuva, chuva que trago comigo no bolso e dentro de um nó que não me sai do pescoço.
Mas enfim, mea culpa, porque tudo isto lhe digo agora, e agora já é tarde demais. Erro meu o de julgar ter sido para si fonte de rendimento...até porque tendo em conta as dívidas por si acumuladas ao longo de anos bem precisa, meu senhor, de alugar todos os quartos disponíveis.
Talvez por isso mesmo faça agora sentido explicar-lhe porque me enfiava eu no quarto de fio a pavio, desde a manhã, e a noite caíu. Porque dentro do quarto construía eu o meu castelo, a minha fortaleza, e no meu quarto não entrava vossa alteza, e eu aproveitei-me disso quanto pude e não pude, não importando o pequeno espaço de três por dois metros, porque o pequeno espaço era meu. Daí o seu temor ao computador. Através de uma ligação sem fios cortam-se os laços, abrem-se rios: uma mãe no quarto fala com a filha na sala através de um écrã de televisão, criando um mundo de ficção, vazio. Por isso as ameaças constantes à integridade do meu computador. Desde Setembro para cá perdi a conta às vezes e às formas pelas quais daria destino final a este teclado, a estes cabos e a estes fios, fosse pelas escadas abaixo ou pela janela fora, o importante era acabar com o computador e sem demora. A minha sorte foi ter sido tudo da boca para fora, uma brincadeira, como dizia você, "as pessoas têm direito a sentir-se zangadas", justificava-se entre dois sorrisos na cara, e eu a pensar cá para os meus botões ser esta agressão, quase diária, razão suficiente para não satisfazer a minha necessidade de segurança, degrau essencial na pirâmide de Maslow, razão suficiente para poder contar à polícia e fazer de si notícia, razão suficiente para me trancar no quarto findo o jantar, com medo, não obstante todas as vitórias que, dia após dia, acumulei no campo profissional, juntando currículo, conhecimentos, respeito e amigos.
Mas, meu senhor e senhorio, meu amo, a minha vida por um fio, fruto do esforço desse mesmo computador, o seu terror a sua anti-profecia, decorridas três semanas e eu a trabalhar, vejam só!, uma bofetada de luva branca para quem recusa acreditar!
E daí em diante foi de manhã sair e à tarde regressar, e tudo está bem, porque uma coisa posso contar e confessar, agora à distância destas páginas e deste livro: dentro das escolas nunca houve problema nenhum. Pelo menos para si, diante de si, porque nunca me foi dada a permissão para me sentir frustrado, triste ou cansado. Não! Dentro da sua casa o trabalho continua, sorriso na cara, a vida é uma falua: contar piadas, rir, conversar, uma maçã dividir, perder uma hora e meia todos os dias só consigo, em jeito de vassalo num constante agradecimento e apaziguar, porque tive o azar de viver com um português provido da auto-estima dos portugueses, a qual é baixa, sentindo como dirigidas a si todos e quaisquer sentimentos negativos que se possam libertar no ar dentro de um balão, mais ou menos trinta centímetros acima da sua cabeça, dentro da sua porta e da sua casa.
No fim ainda tenho de lhe agradecer, porque essa aprendizagem fi-la consigo. Provavelmente arranjei emprego porque ser mais brilhante e luzidio no universo nunca se viu: o senhor contente vai para o emprego pepsodent. E por tal um muito obrigado, tiro-lhe o chapéu, porque no fim você conseguiu fazer de mim um vencedor.
Mesmo se outra coisa não comi durante cinco meses senão peixe em igual número de dias da semana. Quando o pai faz dieta, toda a gente faz dieta, e peixe nunca puxou carroça, meu senhor. A razão pela qual nunca me queixei está exposta umas linhas acima, não pretendendo repetir-me quando já toda a gente sabe como se reage às críticas num clima onde é preciso colocar aspas à palavra "democracia".
Isso e a higiene, tipicamente inglesa. Uma casa demasiado grande para uma pessoa só, e portanto preenchida com a ajuda de um canídeo rafeirote e peludito, pela altura do meu joelho e de nome Sujito,de quatro patas sempre prontas a fazer juz ao nome, fosse dentro da banheira ou no chão da sala, largas cagadelas amestradas, justificadas pela irracionalidade do bicho e do senhorio, e às quais eu tinha de fazer vista grossa, mais às quantidades massivas de pêlo e de pó à mesa e ao jantar, na cama e ao deitar, nas bancadas da cozinha, no quintal, à porta da vizinha.
Tudo aturei, e tudo paguei. Mas não só. À mesa ainda tinha de lhe ouvir os comentários sobre o fim do país e os malefícios da emigração, sobre a cor da pele e a importância da religião. Esquecendo a sua condição natural de português projectava na mão-de-obra estrangeira a razão para nunca ter tido direito a reforma, e não no facto de ele próprio nunca ter pago segurança social.
Elementar, meu caro!

E o que é que se diz aos malucos? (Todos) Aos malucos diz-se sempre que sim!

Mas depois veio o pior. Sujeito a uma operação ao colo do fémur para colocação de uma prótese na anca, operação essa mal corrida e mal cosida, eram frequentes as queixas de dores, impossibilitando o andar e toendo-lhe o falar. Principalmente quando caía a noite, no fim de um dia inteiro a cozinhar para fora, a sua fonte diária de receita e subsistência. E a carne?, perguntava eu num misto de esperança e alegria, Carne para fora, sim senhor!, mas o peixe para dentro, até porque a carne faz-te mal e tu tens de pagar pelos teus pecados... aliás, contam-se pelos dedos os ovos comidos, ovos queridos, fonte de vida e receita, desde Setembro perdidos.
Mas as dores, as dores dentro daquele homem e daquele corpo seco e comido em cinquenta quilos por um metro e sessenta, as dores por tratar apesar dos esforços continuados de auto-medicação, porque a fé não reside no médicos mas no bruxo, e o remédio não está na farmácia mas no embuste, na mentira que faz acreditar, dando razão à psicologia e à medicina elementar. Porque não se acredita em comprimidos, apesar do armário cheio de homeopatias, mezinhas, poções de felicidade e alegria: a fé dos pobres, a popular sabedoria.
No fim foram as dores quem tudo deitou a perder, e ninguém tem a obrigação de viver por debaixo de um homem doente e dos seus insultos e impropérios, as suas ameaças, o seu império, onde o tampo da sanita tem de estar para baixo, o tapete da casa-de-banho para cima, a loiça é para lavar, secar e guardar, a roupa para lavar, estender e passar, as ervilhas são para a panela senão atira-mas à cabeça, o lixo é para pôr na rua, o cão é para passear à lua, se o cão caga, limpas, se não gostas, estou-me nas tintas e de caminho faz as malas e volta lá para a tua terra, que por acaso é a mesma que a minha, o computador é para estar desligado, às dezanove e trinta pões a mesa, não me digas que não sabes mexer num fogão!, é tão trapalhão!, sai-me da frente!, move!, um encontrão, a agressão, verbal, perto da física, vinda de um corpo cheio de tísica, e eu, dia após dia, a chegar a casa coroado de glória, e a perder a coroa num disparo de moratórias, e sempre sem ter para onde ir porque o dinheiro, o dinheiro não chegava, mais faltava vir.
E ao mesmo tempo tendo de viver sob a mentira desta condição residencial, que sim, que vivia em casa de amigos, e não, não há renda, não há contrato, não há prova de morada, nem o senhorio a fornecia, porque vive no medo da inspecção e dos impostos de sua majestade, sua senhoria, seriamente compromentendo as perspectivas de emprego deste vosso, que aqui reside sem ter onde morar.

Por tudo isto, meus amigos, explico de modo abreviado porque têm vocês agora uma casa à disposição em terras de Londres e arredores. Foram precisos cinco meses, um por cada dedo de uma mão, trago os dedos, mas já não sei se tenho a mão. O passado ameaça agora tornar-se agradavelmente distante. O futuro desconheço-o. Eu e os meus pais, os meus avós, os meus primos, os meus tios. Porque ninguém pode pretender antever o futuro só para nos proteger. Já há muito tempo que caminhamos desprotegidos, eu e a Ana, e nada há a fazer senão trabalhar, e viver para contar. Saímos numa bela tarde e alugámos uma casa que se oferecia. Simples, imediato, tens o dinheiro?, nós damos o contrato, e agora já estou legal, há trabalho e uma cama à espera, em nosso nome, no final de cada dia. África estará sempre à espera, mas primeiro Portugal. As saudades são muitas, ainda não há internet mas já há a encomenda, há telefones e a certeza de toda esta vontade de vos ter por cá a partilhar esta realidade que nos propusémos a construir.
E o senhorio? O senhorio não sabe onde moro. Pertença dos idos de quarenta, de pequenino torcido num mundo encolhido à direita, no fim recusou passar uma carta de recomendação, sabe deus porquê, talvez por medo da inspecção, talvez por lhe ver fugir o rendimento, ou por dor de cotovelo, enfim... desconheço o intento. Vistas as coisas aos olhos da sua geração, tudo isto foi um grande favor que nos fez. Não foi por causa das mil libras por mês (as quais lhe pagavam metade das contas da casa), nem tão menos pela alegria de uma companhia essencial à conservação de uma humana identidade. Não, e neste último capítulo talvez já fosse tarde demais, quarenta anos decorridos desde o divórcio e o início de uma vivência tão eremita como solitária. Nem foi pela ajuda nas tarefas domésticas, as limpezas, as arrumações, as mudanças, as revoluções. Não, não foi por nada disto. Foi por favor. Por isso este pontapé no cú que decerto lhe dói e doerá por muitos e longos meses. Sair de casa, não, fugir de casa, de uma semana para a outra (podíamos tê-lo feito em qualquer altura, sabe, não há contrato, para o mal e para todo o bem), sem aviso ou sentimento, sem despedida nem jantar, um brinde e um abraço, um bolo

nada

No fim o dito senhorio ainda nos ficou a dever setenta e quatro libras, por dois dias, dinheiro suficiente para pagar uma viagem a Portugal para dar aquele abraço. Pequeno preço a troco da liberdade da legalidade. Agora temos todos os papéis, uma casa, espaço para lá de um quarto, e o luxo de poder sair de casa sem dizer para onde e com quem, a que horas voltamos e desde que seja às dezanove trinta tudo bem porque há uma mesa para pôr e um jantar para comer. E se não nos apetecer jantar? Supremo sacrilégio, três avé marias, um padre régio!
Dois professores, uma de trinta e um anos, outro de vinte e nove, enfim, duas crianças que não percebem nada disto e de modo algum poderão almejar uma vida, uma casa e um emprego sem uma orientação tão constante quanto opressiva, digna dos regimes de onde se foge e sobrevive, porque pouco mais se pode fazer em tais lugares de onde toda a gente vem e de onde também nós vimos: de Portugal, da casa do nosso senhorio.





OS DOIS IRMAOS

Encontrei dois portugueses. Jovens, por sinal. Definitavemente atraído pelo som da terra natal, aproximei-me a passos certos e contados a dedo, a coberto da minha indumentária inglesa, camuflado pelo casaco comprido e pesado, a pasta de executivo e a gravata cerimoniosa. Ela dizia que só tinha trazido uns chinelos de andar por casa. Rapariga afoita: "De resto, trouxe uns camisolões e este blusão de penas." Ar descontraído, roupas erguidas até ao pescoço, malas, mochilas e saco-cama, e roupa a mais numa cidade com aquecimento central (alguém lembrou-se de lhes dizer que aqui fazia muito frio, e os coitados mais parece que estacam a todo o momento, à espera da queda do primeiro nevão, a queda gigante de um avião, branco - coisa rara e pouco vista por terras de Londres - ). Dois turistas. Jovens, por sinal. Não diria mais de dezanove, vinte e um anos. Ele traz a voz arrastada, entramelada, simples e pouco inteligente das gentes honestas, incapazes de disfarçar a sua bondade e as suas origens. Va ga ro sa men te percorre as sílabas como quem arrasta as pernas, acorrentado aos grilhões de Broca, mas não se importa. Por detrás das lentes garrafais esconde-se do mundo, espreitado de lado num constante espanto: "Miguel, chega-te para trás que vem aí o comboio!" Na verdade, trata-se do metro. "Isto é espectacular!", diz o Miguel sem ouvir, pouco querendo saber do comboio ou do metro que da estação se aproxima. Pouco lhe importa porque, colhido pelo comboio, colhido pela cidade e pelas gentes, tão imensas, tão intensas, não percebe e só rumina, estúpido, diante do palácio. E eu com saudades de ouvir o português. O metro chega e estaciona, cheio. "Se não entrarmos, caga nisso", diz ela, imperativa. Mas entramos. E há espaço... para sardinhas em lata, mas há espaço. "Já contaste ao pessoal?", pergunta o Miguel, por debaixo do cabelinho moreno, penteado para a frente, o qual não ajuda a que tenhamos dele uma imagem séria. " Quando eles souberem, nem vão acreditar!", continua. "Não, ainda não contei.", responde ela, "Pá, mas é melhor assim. Os meus colegas estão num curso de cinco anos e vão todos sair mestres. E o pai diz que esta é uma oportunidade para aproveitar." O pai. Então são irmãos. E ela estuda. Ou está num Erasmus ou é coisa parecida. "Sim.", diz o Miguel, concordando, "E depois podes fazer um mestrado, e depois o doutoramento!" Um momento de pausa. Ambos olham em redor, tanto quanto o pescoço e a multidão, que nos comprime dentro da carruagem, permitem. "Eu não era capaz de viver assim!", afirma ela, "Não era capaz de ir assim para o trabalho, todos os dias assim! Não com esta qualidade de vida." Pois bem, obrigadinha pela parte que me toca. Pois com certeza serias, tanto quanto a falta de emprego te obrigasse, minha menina e minha jovem, e lhe garanto como no fim ainda agradeceria tal sorte... "Ao menos", diz o Miguel, "não é como Lisboa, em que tens aquelas filas todas." "Eu também não era capaz de viver em Lisboa.", diz ela, "Eu vou é para Aveiro, para fazer investigação!" (Aveiro? Investigação? Booolas! Que grande cunha, minha menina! Ou isso, ou muito ingénua. Prefiro acreditar na cunha.) Ela continua a falar: "O comboio está muito cheio, mas daqui até onde queremos são só três paragens" Na verdade eram umas oito, pelo que nos acompanhámos ainda durante largo tempo, até os putos chegarem à estação de destino, bem perto de casa. "Isto daqui a bocado já começa a vagar. Vês? Olha, Miguel, senta-te ali!" E o Miguel, de olhar vago e atarracado, com menos tomates que a irmã, mais sensível e mais cansado, não diz que não e senta-se. Efectivamente. Cria-se um fosso entre os dois e a conversa pára. Por breves instantes apenas o som da carruagem, queixando-se aos trilhos e perguntando sobre o dia e o destino em que tudo acontece e o comboio, inexoravelmente, pára e detém-se diante do fim e diante da linha, encostado a umas molas de borracha e metal, resignadas e frias durante o Inverno, quentes durante o Verão. Depois, só depois, se lembra o Miguel de dizer à irmã para lhe passar o saco-cama, aliviando-lhe o peso, as costas e a viagem, até porque todos nós sabemos quão pesado um saco-cama consegue ser! Ai Miguel, Miguel, se não gostasses da tua irmã, o que gostarias de ser? Ela chega-se: "Devíamos passar por casa a fazer umas sandes. Eu à noite faço uma sopita e não gastamos muito dinheiro. " Uma sopita. Há quanto tempo niguém me prepara uma sopita! Maternal, mulher do mundo, viaja e cozinha, sustenta o irmão e gosta dele. Ela, a irmã mais velha, ele o irmão mais novo. "E tu?, já viste tudo aqui?", pergunta ele. "Sim, já vi tudo. Estive aqui oito dias e vi os museus todos!". "Epá", responde o Miguel, "então tens me fazer o guia! Tens de me levar aquele monumento muito antigo, no sul. Umas ruínas, muito antigo, muito famoso... toda a gente conhece...". E o Miguel parou de pensar. O Miguel parou de pensar em Stonehenge. "Ontem", diz ela, mudando de conversa em jeito de desculpa por não ter respondido à dúvida do irmão, "ainda estive à espera que o Caniço saísse do trabalho, e depois fomos aquele restaurante português. O restaurante português.... e eu a perguntar-me porque me isolei tanto e porquê negar a salutar convivência com os meus conterrâneos, contemporâneos? Talvez porque a brutalidade e a mesquinhez dos mesmos sejam características mais do que suficientes para afastar qualquer um, quanto mais quando estamos à procura de uma conversa intelectualmente estimulante sobre como é por aqui viver e vir, ao invés do benfica discutir, mais o copo três bebido pela manhã, tinto, de preferência, e como se bateu na mulher à frente da filha, tudo discussões já tidas, exceptuando a parte da filha, que ainda não a fiz porque não a quero, e o que eu quero é um eusébio e muitos golos para marcar! Os dois irmãos continuam a conversar. Ele, o Miguel, está há um mês a partilhar casa com outras três pessoas. Já recebe elogios pelo asseio e pela organização. O mesmo não se pode dizer da escocesa que com ele também vive, que ainda não houve vez em que a desgraçada fizesse quanto lhe competia. São uns porcos, Miguel, são uns perfeitos javardos. Estes aqui estão mais preocupados com as nuvens do que com a mesa, a sanita ou as cadeiras. Tanto se lhes faz como se lhes deu se está sujo ou se está limpo, conquanto haja dinheiro para ganhar e um país para estremecer, desde os alicerces ao andar de topo. Mal é os gajos serem rijos, pá! Não é qualquer merda que lhes vai deitar a saúde abaixo, e assim os temos um pouco por todo o mundo. Não são como nós, fibra de peixe tolhida, colhida e torcida pelo mar verde, chumbado de sal na pele e nos ossos, já de si pouco articulados. Quebradiços. Queimados. O Miguel trouxe de Portugal quanta massa e quanto arroz pôde! Coitado, pensava morrer de fome e assim só precisava de adiccionar água. Bastava-lhe chover... Ainda lhe diz a irmã: "Soubesse a mãe que andas a carregar essas massas e o arroz...", e sorri. Soubesse a mãe dessa massa e desse arroz e de certeza que se enterneceria, tanto quanto tu, ou talvez mais, por este filho e este irmão, tão inocente e tão novo que dificilmente deixará de ser fonte de preocupação, quase tanto como é fonte de alegria, infantil, perserverante, por muitos anos por durar. Pelo menos até vir uma mulher estragar-lhe a vida...

Domingo, 20 de Janeiro de 2008

Testemunho enviado para www.mindthisgap.blogspot.com

Pois bem, comigo não foi diferente. Como tantos outros não pude deixar de lutar contra uma vida que insiste em contrariar todas as nossas expectativas, todos os nossos sonhos e anseios, mesmo se os mesmos se resumem a algo tão simples como uma casa à qual podemos chamar nossa, um emprego e algum dinheiro no bolso para gerir com saber e querer. Também eu sou professor, de ciências, e quando conto a quem comigo trabalha existirem por terras de Portugal dezenas de milhar de professores no desemprego, ninguém me acredita. Não quero com isto dizer ser a Inglaterra uma qualquer terra prometida, porque não só não o é como, caso esta aposta não resulte, tenho toda a certeza de amanhã ser mais um dia onde duas pernas e dois braços persistirão em animar o meu corpo e esta vontade. Importante é acreditar. Também eu vivi o desemprego e ainda hoje carrego comigo esse sentimento de culpa de quem acha ser nossa a responsabilidade de um dia encarar tal situação. Mas não é, a culpa não é nossa, e num repente somos mais um desses casos que dão razão à psicologia. Porque crescemos condicionados à função de produzir.
Estive um ano sem ser colocado e cedo percebi não haver lugar para mim no universo tão pequeno que é Portugal, um País de cunhas, cunhados e conhecidos onde não se valoriza o mérito pessoal e onde a oportunidade é para quem já a tem, e não para quem a queria. Mas emigrar foi sempre a última opção. Não há alegria em deixar para trás toda uma família e os amigos que se criaram durante uma vida. E por tal, e tentando fugir ao óbvio, decidi enveredar por outro curso e outra área: a área da enfermagem. Afinal, ainda vivemos num país onde a opinião geral é de que "o importante é ter saúdinha". E conquanto haja saúdinha para tratar, esperava eu, como enfermeiro, não ter de emigrar. O resultado prático foi ter de desistir do curso ao fim de dois anos e meio, porque a exigência do mesmo reprova por um ano quem chumba a uma só disciplina de estágio, e a vida não nos dá espaço para andar por aqui a perder anos de vida, não quando já me crescem os cabelos brancos, e não numa sociedade ansiosa por drenar a juventude que nos vive nos braços. Desisti de enfermagem numa sexta-feira e comecei a preparar a partida no sábado, uma partida que levaria ainda um ano e meio a concretizar. Na quarta-feira seguinte estava a trabalhar no buraco dos licenciados e dos desgraçados: um call-centre da TV Cabo. A experiência sui generis de se ser insultado ao telefone oito horas por dia só não deitou por terra toda a pouca auto-estima que ainda me sobrava porque pelo meio fiz a viagem tão prometida à minha namorada (fomos à Suécia) e nunca, mas mesmo nunca, deixei de procurar um emprego. Graças à internet (na Internet we trust) coleccionei listas formidáveis de contactos electrónicos de escolas públicas, escolas particulares, centros de formação, jornais e revistas, estágios profissionalizantes e estágios não remunerados, até finalmente, oito meses volvidos num rolo de carne em sangue, poder saltar de um buraco na direcção de outro: os centros de estudo. Se por um lado fugi ao insulto, por outro a exploração mercantil a que somos sujeitos é, em definitivo, um insulto em si. Mesmo tendo em conta o facto de ter feito algum dinheiro e agora, olhando para Portugal, saber haver professores a receber cento e cinquenta euros a troco de meio horário de trabalho (o qual é, por norma, pago a quadriplicar). Como não podia deixar de ser, continuei à procura de emprego. pelo caminho soube haver por terras de Inglaterra uma grande falta de professores de ciências. Meu dito, meus amigos, meu feito. Estabeleci os contactos e tratei das qualificações. Estávamos no início de 2007, mês de Janeiro, e ao fim da terceira semana de Fevereiro já tinha o especial certificado na caixa do correio. Estava tudo preparado para partir para Inglaterra! No entanto, faltava o mais difícil: partir. Essa fase, que foi a última, ainda me levou sete meses, só tendo aqui chegado corria o ano no mês de Setembro. Para trás deixei toda as lágrimas em pequenos saquinhos debaixo das asas do avião, e comigo trouxe a certeza cega de nunca mais voltar a um país que, lentamente, nos atira para longe de todos a quantos queremos. Porque não há alternativas. Ou isso, ou o a resignação de uma vida parva e pequena, mesquinha, onde "o que importa é que haja saúdinha...", dia após dia, até nada mais haver senão uma mão de terra onde o licenciado acaba por se conhecer a plantar uma batata e uma couvinha porque a auto-subsistência é o futuro cada vez mais presente. Ao fim de três semanas estava a trabalhar, e hoje estou numa escola de ensino especial em West Ham, Londres, onde me pagam e onde recebo, onde trabalho e onde aprendo. Pago as minhas contas e não sou mais um filho de Portugal à procura de contrariar esse epíteto de "geração rasca", mesmo sendo eu, à data, um dos melhores alunos da escola. Não, isso não conta. O que conta é a batalha geracional, e essa também não escolhe prisioneiros.
Os filhos de Abril são mais que mil e gritam ao cair.
Daqui por uma semana estarei a viver com a minha namorada por terras de Londres, à procura de cumprir a promessa de não mais nos separarmos. O que acontecer daqui em diante é a vida, a mesma que nos é negada porque vedada, em terras de Portugal. As saudades são muitas, mas nada há que me espere no regresso a casa senão um princípio de fome. Poucos amigos ainda fiz e a maior parte do meu tempo tem sido dedicada ao trabalho, mas aos poucos, creio, uma vida hei-de construir e o futuro está ali à porta, à espera do meu consentir, para que eu o deixe entrar dentro da sala-de-aula, de mala às costas em direcção à carteira da frente, onde se senta e onde abre o livro para mais um dia de aulas.