domingo, 1 de Novembro de 2009

Cartas da minha terra, por Maria João Peres


Olá meu querido filho,

Espero que esta te encontre de boa saúde junto da tua mulher, que nós por cá todos bem. Não tenho grandes novidades para te dar, a vaca está quase a parir e a prima Ermelinda também. Os tomateiros do Abílio começaram a secar e ele está vai-não-vai para os cortar, mas como ainda não percebe muito destas coisas da horta está à espera que o vizinho Luís que lhe olhe para os tomates e o aconselhe. Eu, por mim, já lhe disse que estes males se cortam pela raiz, ainda para mais sendo tomate-chucha.

O padre aqui de Covas foi preso para Boticas porque lhe encontraram um armazém de armas e cartuchos na casa paroquial, mas eu até acho muito bem que ele se fizesse tráfico ou lá como eles disseram na televisão, porque já não se vê quase ninguém na missa e quem vai não dá nenhum, se o sr. Prior não arranjar maneira de se governar sozinho, das esmolas é que não lhe dá nem para a bica que ele toma de borla todos os dias no café dos teus padrinhos. Aquele esticadinho que é marido da dona Rosete até falou disto na rádio e acho que ele também estava do lado do sr. Prior.

Por falar no esticadinho e na Rosete, a semana passada vi uma fotografia deles numa daqueles revistas que a tua tia tem lá no cabeleireiro, tinham ido a um desfile de moda mas deve ter sido para ver se ficavam com alguns trapinhos que alguém atirasse para o lixo no fim, e só devem ter entrado por serem gente da rádio porque os dois mais pareciam assim ir para o desfile de moda dos sem-abrigo, eu até fiquei admirada por eles não terem lá ido vender a "Cais". A foto era engraçada, fazia lembrar o Bucha e Estica, mas ao contrário, o Estica era o mais alto e a Bucha a baixinha. A gente olhava para a fotografia e tinha assim uma sensação de... ficar a olhar... Se não tiverem mais nada para fazer podem ver:

http://aeiou.caras.pt/video-bruno-nogueira-aconselha-maria-rueff-na-hora-de-
vestir=f24956?sctx=1:10:q:search:maria%20rueff

, mas tenho pena que no filme não mostrem as sapatilhas dos dois, eu ainda discuti com a tua tia porque eu acho que eram de lona e ela disse que não, gostava de saber a tua opinião e a da Ana que de sapatilhas percebe assim a gente nova como vocês. Lá para Lisboa também já há um novo governo, eu mando-te umas fotografias e acho que o sr. Sócrates escolheu muito a senhora ministra do ambiente, que se chama Dulce Pássaro, está muito bem, se fosse Dulce Carris ele tinha-a posto nos transportes. Aquele senhor que era da Educação, Valter-qualquer-coisa agora mudou de tacho e foi para o emprego. O sr.Carvalho da Silva já veio dizer que é "absolutamente desastroso" mas eu até nem percebo porquê, porque se já havia todos os anos 40000 professores desempregados e com a crise que vai por aí, é só despedir, despedir, despedir, o senhor Valter já tem prática de lidar com o assunto. Se calhar o senhor dos sindicatos acha desastroso é o nome do novo tacho do sr. Valter, que em vez de ser do emprego devia ser do desemprego. Enfim, eles lá sabem, quem sou eu para me meter nesses assuntos. Na educação está aquela senhora dos livros que tu tiveste de ler na escola, das aventuras das gémeas mais os amigos e o cão, com mais dois senhores que ainda ninguém lhes conhece a cara e se calhar mais vale nem vir a conhecer. Seja o que Nosso Senhor quiser, em último caso a gente pode ir sempre pedir uma pressão de ar ao sr. Prior para descarregar umas chumbadas lá para Lisboa (os senhores da polícia falaram mais em caçadeiras

http://www.publico.pt/Sociedade/reportagem-as-armas-do-padre-fernando-guerra
-levaramno-do-altar-para-o-tribunal_1407008
, mas ele deve lá ter um bocadinho de tudo, o sr. Prior nunca nos deixou ficar mal).

A tua irmã faz anos na segunda-feira e diz que a única prenda que queria mesmo ter era estamos os quatro juntos: tu, ela, a Su e eu. De resto não quer mais nada, por isso eu acho que ela vai gostar de qualquer surpresa que tu e a Ana lhe façam.

Espero que respondam depressa, temos todos muitas saudades e eu ainda mais, que estou aqui sozinha neste 3º andar, passo os dias sentada no sofá que até já se está a desfazer, mas não é nesta idade que vou comprar um novo, não achas?! Também só eu é que vejo o tecido a ficar desfiado, ninguém me vem cá visitar neste túmulo. Um dia chegam cá e encontram os meus restos mortais sentados nos restos mortais do sofá, cada um foi à sua vida e eu fiquei para aqui abandonada mas não ligues ao que eu digo, é só falar por falar, não é para ver se consigo que vocês fiquem com nenhum peso na consciência não senhor, eu estou muito bem, com um bocadinho de desequilíbrio por causa da hérnia que continua a crescer mas isso não interessa para nada, na altura arrependi-me mas ainda bem que chamei carniceiro ao preto que me operou.

Muitos e muitos beijos para ti e para a tua mulher, da tua mãe que se assina

Maria João

PS - Desculpa não te mandar nenhuma fotografia das obras que a junta fez aqui à beira de casa por causa das eleições, mas quando me lembrei já tinha fechado o envelope.

domingo, 18 de Outubro de 2009

Se tivesses apenas uma hora para viver


Estás numa sala de aula e recebeste a notícia de que tens apenas uma hora para viver. Vais ficar até ao fim? Vais até lá fora? Telefonas à tua mulher? Já não a vais ver. Não lhe vais dizer nada, daquilo que vai acontecer. Falas com ela como se fosse a última vez, dizes que a amas para ela saber, dás-lhe um beijo, desligas o telefone, vais dar uma volta. Puxas de um cigarro, fumas um cigarro, sentas-te num banco de jardim, observas a rápida cadência do vento mais o cão que passa, pensas sobre tudo quanto tens feito e derramas um par de lágrimas em sinal de contentamento, porque valeu a pena viver e tu sabes disso tão bem quanto eu. Interrogas-te então sobre quanto irá acontecer, se vai doer, o que acontecerá depois e, por breves instantes, ficas curioso, porque chegou a altura, porque finalmente chegou a altura. E depois algo te distrai, para outro lado te chamam a atenção, e de repente esqueces-te disto, do que vai acontecer.
Voltas a pensar na tua mulher, de como é bom quando estão os dois juntos, de como nada mais importa e é tão bom rir e partilhar, de como gostarias de estar com ela uma vez mais. Mas isso não vai acontecer, não quando agora te falta menos de uma hora para viver, e tu não vais querer ir ter com ela, não vais querer senão esperar calmamente pelo sino da torre e contar as horas como se fossem as primeiras da tua vida.
Esperar calmamente sentado num banco de jardim, puxar de mais um cigarro, fumar mais um cigarro, desta vez o último porque não vais querer que aquela porcaria te mate, e percorrer os amigos e a família, um a um, as histórias e as alegrias, as desavenças, as aventuras de um outro dia, mais a casa, quem vai agora cuidar da casa, para depois apagar o cigarro, esperar mais um pouco.
Olhas à volta para os passáros e para a relva, para as árvores e para os deuses que te rodeiam e pensas sobre a praia e sobre o mar, que afinal nem tudo acaba no mar, e talvez se fechares os olhos acabas no mar, por chegar ao mar mais aos braços de Yemanjá, da mãe cujos filhos são peixes, e talvez se fechares os olhos tens-te à tua mulher vestida de preto sentada na areia, dali por muitos anos por contar, e talvez se fechares os olhos não vais querer por certo que a sua vida acabe assim.
Por isso é que a chamas, e por isso é que a trazes para ao pé de ti, para junto do mar e das largas mãos de Yemanjá, para junto do mar e para longe das lágrimas que nascem em terra, para debaixo da água e para longe do mar que ficou lá por cima, para onde tudo é silêncio e as palavras não são precisas, onde não se dialoga e os abraços valem por si.
Tudo isto enquanto fechas os olhos e o sino finalmente bate as horas, que contas como se fossem as primeiras, quando aprendeste a andar, a primeira irmã, quando foste para a escola, o primeiro amigo, a primeira tareia, a segunda irmã, a separação dos teus pais, a terceira irmã, o curso, a primeira namorada, o primeiro emprego, a tua mulher, o avô que te morre, o dia em que te foste embora, o dia em que casaste, o dia em que morres e o corpo fulminado te cai para o lado enquanto as mãos te seguram com força essa carta que lhe deixas, onde se encontra e se lê, em bom português, a morada escrita de uma terra distante para onde eu bem sei como não posso ir sozinho e onde estou, agora e eternamente à espera de ti.

domingo, 11 de Outubro de 2009

Porque não pensa voltar a Portugal?


Cara Joana Bastos, em consequência directa do adiamento da sua reportagem sobre a fuga de jovens licenciados para o estrangeiro, aproveito a oportunidade para responder de um modo mais atempado à sua questão sobre o porquê de não voltar a Portugal. Uma questão nem sempre fácil de responder de um modo directo e que exige uma reflexão um pouco mais profunda para explicar todo o porquê de tamanha teimosia, se é teimosia o sentimento que me preenche a alma.

Porque não pensa voltar a Portugal? Porque existe em mim uma mágoa imensa que não consegue esquecer tudo aquilo pelo qual passei, porque não consigo perdoar os insultos, porque não consigo perdoar as portas fechadas, porque não consigo nem quero perdoar as vezes em que tive de me sentar às escuras num banco de jardim, nos intervalos da tv cabo, longe dos olhares indiscretos para assim melhor devorar as lágrimas e as sandes que tantas vezes me serviram para jantar, sem nunca, no entanto, conseguir aplacar aquela fome vazia que não deixava esquecer o destino. O destino de quem não consegue perdoar o ter de desistir do curso de enfermagem e assim perder talvez a última oportunidade de podermos (eu e a minha mulher) estar junto dos nossos para o resto da vida. Porque quem chumba a uma disciplina prática perde o ano e nunca ninguém quis perceber como em determinadas fases da vida não existem segundas oportunidades. Mesmo sabendo que de nada me teria servido ser enfermeiro dadas as condições precárias nas quais os mesmos laboram hoje em dia (no fim emigrar seria uma opção mais uma vez, e Inglaterra uma certeza onde um enfermeiro pode ganhar até cem euros por hora). Porque não consigo perdoar o terem-me recusado a oportunidade de sonhar quando perdi o ano no estágio de Pediatria. E talvez enfermagem nunca tivesse sido a melhor opção, mas era a única, e só eu sei pelo que passei e o que vi apenas para ficar no meu país. Sim, cometi erros, aprendi com os mesmos, mas recuso-me a aceitar a pena que se destina aos que falham um ensino clínico apenas porque o curso e os hospitais estão de tal modo descoordenados e os estágios de todo coincidentes que se torna impossível repetir o que quer que seja no ano a seguir juntamente com as restantes disciplinas de um qualquer curso que se quer “normal”.
E porque não pensa voltar a Portugal? E se lhe dessem uma segunda oportunidade? Se pudessse voltar atrás no tempo? Se pudesse voltar atrás no tempo talvez tivesse emigrado mais cedo, talvez tivesse insistido mais no ensino, mas voltar a Portugal nunca. Porque não tenho nenhum tacho à minha espera e no fim sou eu quem está profundamente errado por querer acreditar ser possível (e é) subir na vida apenas por mérito próprio. Porque não “conheço” ninguém nem quero “conhecer”, orgulhosamente só à procura de cumprir um destino e pagando o preço correspondido.
Se a minha história é uma história de sucesso? Sim, é claro que é uma história de sucesso. De que outro modo se explica que no espaço de dois anos tenha passado de mero operador de call-centre em Portugal para vice-director de uma escola em Inglaterra? Porque no fim é nisto sobre o qual tenho de me debruçar. Nisto e nos desafios do futuro. É por isto que me recuso a olhar para trás. Porque conquanto olhe para trás, ou sempre que pense sequer em sofrer por saudade, então estarei sempre a perder, e eles ganharam, todos aqueles que me negaram a vida que aqui conquistei por direito.
Agora mudando de tom: se pensa algum dia voltar a Portugal? Cara Joana Bastos, é com toda a alegria e todo o prazer que lhe digo que voltarei a Portugal quantas vezes quiser, porque o dinheiro assim nos permite. É com toda alegria e todo o prazer que lhe explico que assim quisesse e iria a Portugal todos os quinze dias de avião. Não vou porque não quero, porque é cansativo, porque nos entretantos temos outros projectos, vamos no Half-term à Holanda e a Bruxelas, há todo um mundo para ver e as portas ainda agora se abriram, vejo-as ali, à minha frente e somos nós, os dois, um casal, junto, que prometeu um ao outro nunca mais se separar, quem as empurra. Iremos aí pelo Natal e depois só na Páscoa, porque no Half-term de Fevereiro mudamos para uma casa maior. Porque é que não pensa voltar a Portugal? Porque a cada dia que passa me torno mais inglês e agora até digo, em jeito de piada, que até já às seis e meia janto(os teatros e os concertos começam sempre por volta das sete). Porque já chega de negativismo nas nossas vidas e nunca em Portugal poderia ter a qualidade de vida aqui adquirida.
Se algum dia Portugal poderá oferecer as mesmas condições aos seus jovens quadros? Basta ver o telejornal e encontraremos a resposta de todos os dias. Não acredito, deixei de acreditar no dia cinco de Setembro de dois mil e sete. Tarde demais, já não é a minha vida e as cicatrizes não se fizeram para se apagar. Uma amiga nossa descreve-se na sua experiência de emigração como expatriada. Não concordo e às vezes considero um exagero, talvez porque a palavra é demasiado forte. Mas apenas porque em tempos preferi a palavra exílio, e neste campo não consigo deixar de a compreender.
Mudando de registo outra vez, olhemos, por isso e em vez disso, para as coisas positivas, para tudo quanto aprendemos e vencemos, para todas as paredes que deitámos abaixo e como todos quantos conhecemos se orgulham, hoje, de nós.
Reconheço que todas estas palavras não lhe cabem no espaço de uma só reportagem, cada uma das nossas histórias dava um livro, e talvez seja nisso que devamos concentrar as nossas energias, mas cada coisa a seu tempo, este texto será publicado no blogue do costume, escolha as partes que melhor lhe convierem, apenas pretendo dar mais um acrescento para que melhor possa compreender as realidades que caracterizam um país. Isso e o facto de pela primeira vez em dois anos conseguir passar a papel algumas das mágoas sofridas, sinal que talvez tenha chegado o tempo de sarar as feridas.

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

Passando a mensagem - em resposta a um pedido de entrevista para o Expresso



Comparada com a vida de tantos licenciados desempregados em Portugal a minha vida não foi muito diferente, e nesse aspecto nao acrescento grande coisa à sua investigação. A não ser que eu lhe fale nesta minha incapacidade de falar sobre o que de facto aconteceu em Portugal, a tentativa falhada de um segundo curso para me tornar enfermeiro na esperança de um emprego fixo (e hoje olhe para os enfermeiros e veja como há males que vêm por bem), a necessidade de trabalhar porque caminhava para os trinta anos de idade em passadas em tudo maiores que as minhas pernas e ao mesmo tempo recusava toda a ajuda por parte de uma família que não tem a obrigação de sustentar um homem que ansiava por ser um homem e poder ter a seu lado uma mulher que dele se orgulhe, o ter aceite o que primeiro me veio às mãos parar e saber que só lá fora reside a esperança, mas nos entretantos não existe a capacidade económica para nos catapultar na direcção de uma vida melhor e pouco mais nos resta para além de amargar o pão que o diabo amassou.
Num aspecto, e só num aspecto, posso eu dar razão a quem disse que os licenciados têm uma maior capacidade de encontrar emprego. Porque em tudo a formação é uma mais valia, e se não fosse pela formação nunca teria parado de pensar sobre as mil e uma maneiras de conseguir dar a volta à minha vida.
Em Fevereiro de 2006, quando percebi que ia perder o ano no curso de enfermagem soube que tinha de sair do país. Restava saber como e para onde. Foram dezoito meses nisto. Dezoito meses à procura de uma solução. Dezoito meses durante os quais acabei por passar fome para assim juntar mais dinheiro para sair do país. Foi uma opção, porque a raiva que se tem à vida obriga a tudo. África foi uma possibilidade. Quando a auto-estima se encontra abaixo de zero achamos que de nada valemos, e a ânsia de aplicar tudo o que aprendemos é por demais maior, de modo que se não tivesse acontecido Londres de certeza que teria acabado por migrar para onde de certeza somos precisos e onde ninguém nos diz que não. Londres e a minha mulher, que sempre esteve ali, ao lado, para me contar sobre como merecíamos uma vida melhor.
Em Dezembro de 2006 soube de de um colega de faculdade que já se encontrava a trabalhar em Londres como professor e como as oportunidades eram mais que muitas. Isto deve-se a uma fuga massiva do professorado do sistema de ensino inglês durante os anos noventa, num periodo em que se dava todo o poder ao aluno. No entanto as regras mudaram, e hoje o ensino, com as suas remunerações e períodos de férias a cada seis semanas, tornou-se uma profissão atractiva. As equivalências foram tratadas por correio e no espaço de três semanas (Janeiro de 2007) recebia no meu correio o "bilhete de avião" para poder ensinar Inglaterra e lutar por uma vida que se desenhe como tal. No entanto, deixar namorada, amigos e família para trás foi uma decisão que em tantos momentos colocou em causa a mulher com quem acabei por casar. Como explicar a quem se ama que amanha já cá não estamos, que estamos a dois mil quilómetros de distância, numa terra estranha com gente estranha onde tudo pode acontecer e ninguém para o saber ou ajudar? De facto já não se tratava de ir para África, porque há a guerra, a doença e a morte. Tratava-se de ir e de a deixar, só. Perdidamente só. E como passou o tempo até que percebesse como o seu sofrimento era o meu sofrimento. Por esse motivo adiei o invevitável para Setembro de 2007, início do ano escolar. Na noite anterior vieram todos para se despedir. Todos os amigos, toda a família desde que os meus pais se separaram.
E no dia que se lhe seguiu escuso-me a descrever as lágrimas com que a minha mulher e a minha irmã choraram o aeroporto de Lisboa. Nunca me hei-de esquecer do dia: cinco de Setembro de dois mil e sete. Um amigo meu descreveu muito bem a sensação: é como se nascêssemos outra vez. Tenho aqui o jornal desse dia. Nunca mais o li.
O dinheiro que juntei em dezoito meses, mil euros, nunca teria sido suficiente. Foi com ajuda da minha mulher e da minha avó que consegui sair. Sair para prometer nunca mais voltar (e no entanto voltei tantas vezes, e no entanto estava tão enganado). Aluguei um quarto na casa de uma senhora portuguesa (a pior coisa que eu poderia ter feito, uma vez que a mesma se embriagava fortemente quando era chegada a noite, e eu que me trancava no quarto à espera do pior).
Tal como lhe contei, corri tantas agências de emprego para professores quanto pude. Quatorze, quando a média é de três para o professor inglês recém-licenciado. Porque tinha de trabalhar, tinha de trabalhar, já tinha perdido tudo: já tinha deixado tudo e todos para trás. Já não tinha casa, já não tinha mulher, estava por minha conta e lentamente a aprender como as posses materiais que um dia se tiveram não passam de objectos que não mais nos falta nos fazem quando lutamos dia-a-dia para ter um emprego bem longe, bem longe.
Calcorreei Londres, tive de passar um dia de perna estendida tantas eram as dores de andar a pé porque precisava de poupar o dinheiro ao invés de o gastar num sistema de transporte que é dos mais caros do mundo para quem não trabalha. Aqui há mais de cem agências de emprego só para professores. E quando dizem que se pode criar uma agência num vão de escada, não estão muito longe da verdade, e nem lhe vou contar da entrevista que decorreu num salão de cabeleireiro.
Ao fim de três semanas comecei a trabalhar, a fazer substituições dia-a-dia, cada dia numa escola diferente, a ganhar cerca de cento e quarenta euros por dia! Nada mau! Ao fim de um mês e meio tive uma colocação a tempo inteiro numa escola na zona este, uma oportunidade a não perder para poder trazer a minha mulher para junto de mim. Nos entretantos comecei a viajar para Portugal. Que festa cada vez que lá fui. Todos os que me queriam ver. Fui passar o Natal a casa. E desde Setembro até vinte e sete de Janeiro, o dia em viémos os dois juntos para nunca mais se separarem, escrevi-lhe uma carta todos os dias. Sempre a chamá-la, sempre a chamá-la. A Ana arranjou emprego em nove dias. Um recorde! Foi morar comigo para casa da velha bêbeda, de onde saímos para alugar um apartamento ao fim de três semanas. Desconfio que ainda hoje a velha pensa ser da Ana a culpa da mudança. Que não nos doa a cabeça, porque nunca mais a vimos.
Fiquei na mesma escola por um ano. E quando lhe disse que por acaso acabei onde hoje me encontro, como vice-director de uma escola de ensino especial, digo-lhe que foi por acaso porque as oportunidades existem para todos quantos querem aprender. Sem medo. Porque depois de tudo o que se passou, pior de certeza não ficamos. Ganha-se um desprendimento porque se perdem as raízes fundas quando saímos do nosso Portugal. E que fundas são. Se eu voltaria para Portugal? Amanhã. É só apanhar o avião para ver o mar. Mas o mar não nos traz dinheiro, apenas saudade. E como dizia outro amigo meu (porque eu sou natural da Trafaria), podem tirar o rapaz da Trafaria mas não tiram a Trafaria do rapaz. Voltar, só para a reforma, temo e desconfio. Londres acolhe-nos e agradece quem vem para trabalhar. O custo de vida é equivalente ao português que vive enganado com a ideia que lá fora também há crise, mas os ordenados de um licenciado são o dobro e um casal tem uma vida confortável. E se nada sei sobre o dia de amanhã, sei que nunca me hei-de esquecer que, pelo menos num curto espaço de tempo da minha vida, tive uma vida normal. Se houver alguém que me defina o que é isso da norma.
Para finalizar deixo algumas questões, para as quais Portugal nunca há-de providenciar a resposta:
sou o mesmo português aqui que sempre fui em Portugal, a mesma dedicação ao trabalho, a mesma capacidade de sacrifício, o mesmo profissionalismo. Porque só aqui tão longe vejo reconhecidas estas capacidades?
como é possível em tempo de “crise” a um jovem casal poder ir ao teatro, jantar fora e a um concerto de música clássica num só fim de semana?
como é possível a um trabalhador temporário poder pagar uma casa, as contas do mês, sair, viver, respirar outra vez?
É isto um sonho ou a realidade que se esconde aos portugueses? No fim continuamos isolados no canto da Europa, vítimas da geografia no século vinte e um. Somos capazes de passar a vida inteira no mesmo lugar sem sequer ambicionar uma vida melhor conquanto haja saudinha. Mentalidade cristã versus protestantismo mais séculos de diferença igual a João e Ana em Inglaterra.

sábado, 26 de Setembro de 2009


O Sol, violento, investe contras as persianas pela manhã, revestindo a radiação todas as quatro paredes, soalho e tecto do quarto. Sozinho, acorda na cama da sua mãe. Mãe, diz ele, chama, clama, sem resposta. Deve ter saído, é sábado de manhã e dia de mercado e, por norma, a progenitora dedica as compras semanais a todas as dez e as doze horas sabáticas. Levanta-se e despe a camisa do pijama para sacudir o calor que lhe cega a pele. Abre a porta para o corredor e sai do quarto.
Estremunhado, percorre com o olhar o quarto que é o seu, o primeiro à direita. A cama, por fazer desde há cinco dias, simboliza a necessidade de desmazelo na vida de um jovem onde tudo o resto é aprumo e meticulosa organização, desde os apontamentos da faculdade ao centro da escrivaninha até à biblioteca, alfabeticamene arrumada no encosto da parede.
A sala, à esquerda, ampla com a mesa ao meio e o escritório ao fundo mais a televisão metida a um canto, ainda ligada desde que a noite se chamou noite, sem som (a noite, não a televisão), despejando imagens do mundo para o mundo, longe dos olhares indiscretos e das conversas amigas tidas no sofá disposto defronte, mais parece pedir que a percorram outra vez, e outra vez.
Vai chamar as irmãs, primeiro a mais nova, mais pequena, que dorme no quarto mais pequeno, como se fosse sua sina viver na escala oferecida por Deus, a meio do corredor e do comprimento, no lugar onde foi uma antiga casa-de-banho. Susana, diz ele, chama, clama, sem reposta. Abre a porta e a cama, feita e vazia, fria, ausente de corpo e de vida, fala-lhe como ali já não mora ninguém e que as paredes, cheias de motivos adolescentes, fotografias de amigos e capas de revista, a meia-irmã abandonada a meio do quadro e dos pais, e o roupeiro a cair de roupa por usar, são agora memórias para estimar e perpetuar, seladas até ao dia do regresso do sol.
Corre em direcção ao quarto da irmã do meio e chama, Joana, e clama, Joana, e não tem resposta. A porta, de correr, desliza no carril dos braços para deixar ver quem já lá não está para se ver e saudar, conversar e tanto rir. Apenas janelas e bibelôs, esquadrões de bibelôs armados de alto a baixo, chinezinhos, cães, gatos, caixas, potes e garrafinhas nas estantes e na cabeceira, na mesa de camilha e nos parapeitos das janelas, as mesmas que deixam ver a rua e o mar a todo o comprimento daquele que é o maior quarto da casa, erigido sobre uma varanda onde antes moraram duas crianças e quatro pedais, um triciclo e um carrinho de fórmula um e corridas infindas numa tarde de Verão.
E o que mais estranheza lhe causa é a ausência matutina dos periquitos, gerações engaioladas animadas pela manhã que todos os dias floresce na marquise: o amarelo e a amarela, a verde e o azul com a janela aberta e a gaiola aberta, e os comedouros ainda meio cheios a alpista e milho alvo mais as penas da barafunda causada pelo dia da liberdade. E a seu lado nem sinal do cão que se deita para dar o alarme de uma eventual fuga ou assalto. Deixou a cama de verga e o eco dos latidos de encontro às paredes da casa e toda a largura da rua.
Abre as portas das traseiras e desce a escada em direção ao quintal, o qual rodeia a casa e se senta no relvado que dá para a rua. Os vizinhos, esses, mal-amados, ainda lá estão para lhe dar os bons-dias. Bom-dia...
Acorda estremunhado. Segura-se ao tabaco e sai para o quintal. A luz percorre-lhe o tronco nu e conforta. Enrola um cigarro e fuma a vida que lhe foi dada. De repente um par de passos sobre a relva e o susto que o faz voltar para trás. A mulher, preocupada, vem para saber dele. Pergunta-lhe se voltou a ter um pesadelo. Sonhei que estavam cá todos outra vez, responde, e encosta-se ao ombro dela e chora como se fosse a primeira vez.

domingo, 20 de Setembro de 2009

A moldura


A dinâmica da moldura electrónica contrasta com o imobilismo da moldura de madeira que a seu lado se senta. Na moldura de plástico as imagens sucedem-se em catadupa e não há uma em que não vos veja a rir. Os momentos em que fomos felizes porque estávamos juntos: a minha mãe ou os teus pais, os nossos amigos e a nossa família amputados de nós, a rir do lado de lá das imagens e do mundo;
num repente connosco e nós por lá, a devorar cada instante, cada minuto, cada fracção de vídeo, cada vitória, e no outro distantes;
três irmãos que se separam como se separam os pontos cardeais à conquista do mundo, a luz que se deixa e a vontade que fica de ficar, só para mais um abraço, mais um aconchego, só para mais um beijo e a promessa...
A promessa, sempre a promessa, porquê a promessa e a necessidade de prometer aos vossos olhos e às vossas lágrimas, às vossas mãos e às vossas preces se amanhã é já amanhã e podemos chorar todos juntos outra vez as partidas do destino mais toda a alegria do regresso no tempo que dura uma noite e um dia e o dia seguinte se preciso for? Porquê a saudade e a vontade de tocar todas as pedras e todas as ruas, senti-las em português, sozinho ao lado do sol, porquê estas raízes e este apego, esta orfandade se vos desapareço se no fim não somos homens, somos filhos, nem temos mulher, somos filhos, e nem por isso fazemos amor, somos filhos, somos filhos e não temos filhos, para sempre crianças presas aos pais que hão-de morrer sem que estes lhes digam ou ensinem sobre a volatilidade do tempo e do vento que leva as horas e as gentes e nos deixa inevitavelmente sós?
Deixem-nos crescer, deixem-nos partir, aqui não temos tecto nem rede e os passos em falso são dados para cair. Temo-nos um ao outro e amparamo-nos, e estamos bem se é isso que querem saber. E aqui conquistamos e aqui contamos, todas as histórias com que se fazem uma vida. E sentimos a vossa falta e as imagens na moldura não deixam de sorrir. Havemos de voltar, vão ver, os bilhetes de avião já nos acompanham no bolso e o relógio, feliz, conta novamente a nosso favor. Nos entretantos ficam as memórias e os momentos nos quais nos tivémos, despejados no écran em catadupa, em sentimento.
Estendo a mão, quero-vos tocar, e o écran dissolve-se para me deixar passar um braço e uma perna. Apoio-me de lado e passo o tronco e a outra perna e depois o outro braço. Do lado de lá vejo-vos sorrir e é a sorrir que me junto, colocando-me em pose para a fotografia. Olho para a câmara enquanto vos abraço e fico eternamente do lado de lá, ao vosso lado.

sábado, 12 de Setembro de 2009

Os portugueses sabem dizer adeus


Não queria dizer adeus. A conversa prolongava-se. Inventava assuntos, sabia que o relógio corria impetuosamente contra si e que a noite acabaria inevitavelmente só, com pouco mais para além do vento madrugador que vem para varrer o punhado de estrelas ainda à espera para lhe abrir a porta de casa. Não queria dizer adeus, não queria deixar fugir por entre os dedos a areia esquiva e por isso insitia em virar a ampulheta quantas vezes fossem precisas para contrariar a gravidade e Newton no seu túmulo. Não sabia dizer adeus, nem muito menos admiti-lo. Se o disesse então talvez tivéssemos falado, e talvez tivéssemos dito como é bonita a amizade e como nada há de errado em chorar, nem que seja por um bocadinho, enquanto estendemos aquele abraço e fazemos promessas de um reencontro tão breve quanto possível. Mas não, como podia ele admiti-lo? Um homem não chora e um homem não sente, mesmo se nunca tiver pedido para ser um homem, porque assim são as expectativas de quantos nos rodeiam, sob pena de excomunhão, para sempre privado da comunicação com os demais fiéis. E de pouco nos serve dizer como não partilhamos das mesmas crenças, da mesma fé ou da mesma religião, porque um homem não chora, um homem é de pedra e de ferro e quanto muito enferruja, mas não verga, firme alto no topo do baluarte. Por isso não havia maneira de a conversa ter fim. Podia ter durado a noite toda, e eu sem te perceber, e eu a querer ir embora, ir embora, porque outros amigos esperavam lá dentro no Café, e os meus pais nessa mesma noite lá no Norte. Dali por dois dias seria chegada a hora de apanhar o avião e depois o até nunca mais. Desculpa-me, antecipava a minha própria dor sem reconhecer a tua, que me vias já de partida nas asas do avião e por isso não te calavas. Mais valia ter pedido a Deus por uma nuvem piroclástica que nos congelasse ali mesmo, naquele lugar, naquele altar, para sempre duas estátuas de cinza e osso que falam uma com a outra, a outra com a uma, sem saber dizer adeus ou qual o seu significado e, na possibilidade de o saberem ou poderem, incapacitadas para tal, condenadas a mil pores-do-sol. Mas nem pedi a Deus nem tão pouco te percebi num repente cheio de água e de sal senão quando fugiste de mim em direção ao carro ao mesmo tempo que puxavas das chaves da ignição e dizias “desculpa-me, não me consigo calar, é que eu não consigo dizer adeus”, para em seguida abrires a porta e largares a toda a brida até a casa, onde a noite acaba só e o vento varre as poucas estrelas ainda presas ao firmamento.
De modo que só então compreendi que não foste tu quem não soube dizer adeus, amigo meu, fui eu mais esta frieza nórdica da qual me cobri desde que descobri como custa viver tão longe cheio de fome. Se tu soubesses como é lá fora, como aquela gente não sabe dizer adeus, como tudo se resume a um aperto de mão à chegada e outro igual à saída, despido de embrulhos, laçarotes ou cerimónias. Assim como vieste, assim foste, conquanto tenhas cumprido quanto se te pediu e nada mais, nenhuma porta aberta, nenhum convite para a amizade, tudo é trabalho, em nada um abraço, como me faz falta um abraço, um corpo de encontro ao meu, também ele a trinta e sete graus e juntos a setenta e quatro, tão quente nem que seja só durante alguns segundos para me segurar de encontro à Terra e de volta à vida, uma massagem cardíaca, uma desfibrilhação, uma tentativa bem sucedida de reanimação.
Por isso as minhas desculpas, os portugueses sabem dizer adeus, os ingleses não e eu agora até já às seis e meia janto, por isso desconheço a pessoa na qual lentamente me torno e que insiste em reflectir-se do lado de lá do espelho. As minhas desculpas mais esta certeza de que hei-de lá estar sempre à espera daquele momento a meio do dia em que algo acontece e eu me lembro de ti para mandar um abraço logo em seguida enquanto digo que nem vais acreditar, e que nem sonhas aquilo que eu ainda agora vi.