Já o Vicente é o primeiro a dizer: "a ti, quando te dá, o que vale é que te dá com força!", explicando assim as bruscas mudanças de atitude que, de tempos a tempos, varrem estas planícies africanas, com grandes e largas vassouras de fogo em movimentos ritmados, contínuos e incessantes, junto ao solo e da esquerda para a direita, renovando a vida que está feita, rompendo os novos horizontes e trazendo as novas à vida. Frutos da fúria meu amigo, porque para tudo há uma razão, mesmo se nem tudo nos pareça razoável.
Mas tudo tem uma razão, e essa razão começou no dia cinco de Setembro, quando pela primeira vez coloquei estes dois pés, que comigo transporto, dentro daquela que foi a minha casa por cinco meses e, por demais, alguns dias. Pudesse eu imaginar e antecipar e sabe deus quanto sofrimento poderia ter poupado ao mundo. Mas a minha situação, por demais frágil, por certo incerta, outra coisa não poderia pedir senão um tecto e uma cama, premissa primordial para toda e qualquer conquista.
"Não penses que vens para cá para ser rico" é, sem dúvida, das primeiras frases que recordo. Pudesse eu imaginar os modos como este homem me marcou e, decerto, teria pensado duas vezes antes de abrir a porta.
Igualmente, erro meu, o de nunca lhe ter dado resposta, fosse a circunstância que fosse. Provavelmente porque ainda está para nascer a mulher que há-de cumprir tal tarefa, para receber em seguida a promessa de um céu eterno. Talvez porque toda e qualquer resposta minha careceria de uma noite passada ao relento, juízo final e único para todas as tentativa de usurpação do poder que se instituí dentro das casas que não são as nossas. Baixar a bolinha e amochar foi sempre o lema do emigrante periclitante. Afinal, muito havia por fazer.
"Não penses que vais arranjar emprego na tua área", outra frase-chave, a partir da qual qualquer um começa a perguntar-se até que ponto estão a meter o dedo dentro de uma panela que não é a sua, o dedo e a colher a provar, colher judiciosa e reprovativa num franzido de nariz e de rosto. Resultado prático: venho eu para aqui e a pagar e começo desde cedo a ter de justificar a minha presença, os meus feitos e os meus propósitos, factores suficientes para me sentir não como um mero hóspede e fonte de rendimento, mas como mais uma responsabilidade e um peso nos ombros: meu caro senhor, eu não pedi para ser responsabilidade de ninguém, e é precisamente para não ser responsabilidade de ninguém que aqui estou diante dos seus cansados e venerandos olhos. Trago dinheiro no bolso e uma mão cheia de projectos, posso e pretendo ficar por três meses e, uma coisa lhe digo, África estará sempre à espera, por isso não se rale comigo, porque antes de estar ralado comigo, ainda tem à sua frente toda uma família e todos os amigos, e à cabeça destes o meu amor desesperado, plantado no aeroporto de Lisboa, ainda a acenar o lenço e a face cheia de lágrimas como num dia de chuva, chuva que trago comigo no bolso e dentro de um nó que não me sai do pescoço.
Mas enfim, mea culpa, porque tudo isto lhe digo agora, e agora já é tarde demais. Erro meu o de julgar ter sido para si fonte de rendimento...até porque tendo em conta as dívidas por si acumuladas ao longo de anos bem precisa, meu senhor, de alugar todos os quartos disponíveis.
Talvez por isso mesmo faça agora sentido explicar-lhe porque me enfiava eu no quarto de fio a pavio, desde a manhã, e a noite caíu. Porque dentro do quarto construía eu o meu castelo, a minha fortaleza, e no meu quarto não entrava vossa alteza, e eu aproveitei-me disso quanto pude e não pude, não importando o pequeno espaço de três por dois metros, porque o pequeno espaço era meu. Daí o seu temor ao computador. Através de uma ligação sem fios cortam-se os laços, abrem-se rios: uma mãe no quarto fala com a filha na sala através de um écrã de televisão, criando um mundo de ficção, vazio. Por isso as ameaças constantes à integridade do meu computador. Desde Setembro para cá perdi a conta às vezes e às formas pelas quais daria destino final a este teclado, a estes cabos e a estes fios, fosse pelas escadas abaixo ou pela janela fora, o importante era acabar com o computador e sem demora. A minha sorte foi ter sido tudo da boca para fora, uma brincadeira, como dizia você, "as pessoas têm direito a sentir-se zangadas", justificava-se entre dois sorrisos na cara, e eu a pensar cá para os meus botões ser esta agressão, quase diária, razão suficiente para não satisfazer a minha necessidade de segurança, degrau essencial na pirâmide de Maslow, razão suficiente para poder contar à polícia e fazer de si notícia, razão suficiente para me trancar no quarto findo o jantar, com medo, não obstante todas as vitórias que, dia após dia, acumulei no campo profissional, juntando currículo, conhecimentos, respeito e amigos.
Mas, meu senhor e senhorio, meu amo, a minha vida por um fio, fruto do esforço desse mesmo computador, o seu terror a sua anti-profecia, decorridas três semanas e eu a trabalhar, vejam só!, uma bofetada de luva branca para quem recusa acreditar!
E daí em diante foi de manhã sair e à tarde regressar, e tudo está bem, porque uma coisa posso contar e confessar, agora à distância destas páginas e deste livro: dentro das escolas nunca houve problema nenhum. Pelo menos para si, diante de si, porque nunca me foi dada a permissão para me sentir frustrado, triste ou cansado. Não! Dentro da sua casa o trabalho continua, sorriso na cara, a vida é uma falua: contar piadas, rir, conversar, uma maçã dividir, perder uma hora e meia todos os dias só consigo, em jeito de vassalo num constante agradecimento e apaziguar, porque tive o azar de viver com um português provido da auto-estima dos portugueses, a qual é baixa, sentindo como dirigidas a si todos e quaisquer sentimentos negativos que se possam libertar no ar dentro de um balão, mais ou menos trinta centímetros acima da sua cabeça, dentro da sua porta e da sua casa.
No fim ainda tenho de lhe agradecer, porque essa aprendizagem fi-la consigo. Provavelmente arranjei emprego porque ser mais brilhante e luzidio no universo nunca se viu: o senhor contente vai para o emprego pepsodent. E por tal um muito obrigado, tiro-lhe o chapéu, porque no fim você conseguiu fazer de mim um vencedor.
Mesmo se outra coisa não comi durante cinco meses senão peixe em igual número de dias da semana. Quando o pai faz dieta, toda a gente faz dieta, e peixe nunca puxou carroça, meu senhor. A razão pela qual nunca me queixei está exposta umas linhas acima, não pretendendo repetir-me quando já toda a gente sabe como se reage às críticas num clima onde é preciso colocar aspas à palavra "democracia".
Isso e a higiene, tipicamente inglesa. Uma casa demasiado grande para uma pessoa só, e portanto preenchida com a ajuda de um canídeo rafeirote e peludito, pela altura do meu joelho e de nome Sujito,de quatro patas sempre prontas a fazer juz ao nome, fosse dentro da banheira ou no chão da sala, largas cagadelas amestradas, justificadas pela irracionalidade do bicho e do senhorio, e às quais eu tinha de fazer vista grossa, mais às quantidades massivas de pêlo e de pó à mesa e ao jantar, na cama e ao deitar, nas bancadas da cozinha, no quintal, à porta da vizinha.
Tudo aturei, e tudo paguei. Mas não só. À mesa ainda tinha de lhe ouvir os comentários sobre o fim do país e os malefícios da emigração, sobre a cor da pele e a importância da religião. Esquecendo a sua condição natural de português projectava na mão-de-obra estrangeira a razão para nunca ter tido direito a reforma, e não no facto de ele próprio nunca ter pago segurança social.
Elementar, meu caro!
E o que é que se diz aos malucos? (Todos) Aos malucos diz-se sempre que sim!
Mas depois veio o pior. Sujeito a uma operação ao colo do fémur para colocação de uma prótese na anca, operação essa mal corrida e mal cosida, eram frequentes as queixas de dores, impossibilitando o andar e toendo-lhe o falar. Principalmente quando caía a noite, no fim de um dia inteiro a cozinhar para fora, a sua fonte diária de receita e subsistência. E a carne?, perguntava eu num misto de esperança e alegria, Carne para fora, sim senhor!, mas o peixe para dentro, até porque a carne faz-te mal e tu tens de pagar pelos teus pecados... aliás, contam-se pelos dedos os ovos comidos, ovos queridos, fonte de vida e receita, desde Setembro perdidos.
Mas as dores, as dores dentro daquele homem e daquele corpo seco e comido em cinquenta quilos por um metro e sessenta, as dores por tratar apesar dos esforços continuados de auto-medicação, porque a fé não reside no médicos mas no bruxo, e o remédio não está na farmácia mas no embuste, na mentira que faz acreditar, dando razão à psicologia e à medicina elementar. Porque não se acredita em comprimidos, apesar do armário cheio de homeopatias, mezinhas, poções de felicidade e alegria: a fé dos pobres, a popular sabedoria.
No fim foram as dores quem tudo deitou a perder, e ninguém tem a obrigação de viver por debaixo de um homem doente e dos seus insultos e impropérios, as suas ameaças, o seu império, onde o tampo da sanita tem de estar para baixo, o tapete da casa-de-banho para cima, a loiça é para lavar, secar e guardar, a roupa para lavar, estender e passar, as ervilhas são para a panela senão atira-mas à cabeça, o lixo é para pôr na rua, o cão é para passear à lua, se o cão caga, limpas, se não gostas, estou-me nas tintas e de caminho faz as malas e volta lá para a tua terra, que por acaso é a mesma que a minha, o computador é para estar desligado, às dezanove e trinta pões a mesa, não me digas que não sabes mexer num fogão!, é tão trapalhão!, sai-me da frente!, move!, um encontrão, a agressão, verbal, perto da física, vinda de um corpo cheio de tísica, e eu, dia após dia, a chegar a casa coroado de glória, e a perder a coroa num disparo de moratórias, e sempre sem ter para onde ir porque o dinheiro, o dinheiro não chegava, mais faltava vir.
E ao mesmo tempo tendo de viver sob a mentira desta condição residencial, que sim, que vivia em casa de amigos, e não, não há renda, não há contrato, não há prova de morada, nem o senhorio a fornecia, porque vive no medo da inspecção e dos impostos de sua majestade, sua senhoria, seriamente compromentendo as perspectivas de emprego deste vosso, que aqui reside sem ter onde morar.
Por tudo isto, meus amigos, explico de modo abreviado porque têm vocês agora uma casa à disposição em terras de Londres e arredores. Foram precisos cinco meses, um por cada dedo de uma mão, trago os dedos, mas já não sei se tenho a mão. O passado ameaça agora tornar-se agradavelmente distante. O futuro desconheço-o. Eu e os meus pais, os meus avós, os meus primos, os meus tios. Porque ninguém pode pretender antever o futuro só para nos proteger. Já há muito tempo que caminhamos desprotegidos, eu e a Ana, e nada há a fazer senão trabalhar, e viver para contar. Saímos numa bela tarde e alugámos uma casa que se oferecia. Simples, imediato, tens o dinheiro?, nós damos o contrato, e agora já estou legal, há trabalho e uma cama à espera, em nosso nome, no final de cada dia. África estará sempre à espera, mas primeiro Portugal. As saudades são muitas, ainda não há internet mas já há a encomenda, há telefones e a certeza de toda esta vontade de vos ter por cá a partilhar esta realidade que nos propusémos a construir.
E o senhorio? O senhorio não sabe onde moro. Pertença dos idos de quarenta, de pequenino torcido num mundo encolhido à direita, no fim recusou passar uma carta de recomendação, sabe deus porquê, talvez por medo da inspecção, talvez por lhe ver fugir o rendimento, ou por dor de cotovelo, enfim... desconheço o intento. Vistas as coisas aos olhos da sua geração, tudo isto foi um grande favor que nos fez. Não foi por causa das mil libras por mês (as quais lhe pagavam metade das contas da casa), nem tão menos pela alegria de uma companhia essencial à conservação de uma humana identidade. Não, e neste último capítulo talvez já fosse tarde demais, quarenta anos decorridos desde o divórcio e o início de uma vivência tão eremita como solitária. Nem foi pela ajuda nas tarefas domésticas, as limpezas, as arrumações, as mudanças, as revoluções. Não, não foi por nada disto. Foi por favor. Por isso este pontapé no cú que decerto lhe dói e doerá por muitos e longos meses. Sair de casa, não, fugir de casa, de uma semana para a outra (podíamos tê-lo feito em qualquer altura, sabe, não há contrato, para o mal e para todo o bem), sem aviso ou sentimento, sem despedida nem jantar, um brinde e um abraço, um bolo
nada
No fim o dito senhorio ainda nos ficou a dever setenta e quatro libras, por dois dias, dinheiro suficiente para pagar uma viagem a Portugal para dar aquele abraço. Pequeno preço a troco da liberdade da legalidade. Agora temos todos os papéis, uma casa, espaço para lá de um quarto, e o luxo de poder sair de casa sem dizer para onde e com quem, a que horas voltamos e desde que seja às dezanove trinta tudo bem porque há uma mesa para pôr e um jantar para comer. E se não nos apetecer jantar? Supremo sacrilégio, três avé marias, um padre régio!
Dois professores, uma de trinta e um anos, outro de vinte e nove, enfim, duas crianças que não percebem nada disto e de modo algum poderão almejar uma vida, uma casa e um emprego sem uma orientação tão constante quanto opressiva, digna dos regimes de onde se foge e sobrevive, porque pouco mais se pode fazer em tais lugares de onde toda a gente vem e de onde também nós vimos: de Portugal, da casa do nosso senhorio.
OS DOIS IRMAOS
Encontrei dois portugueses. Jovens, por sinal. Definitavemente atraído pelo som da terra natal, aproximei-me a passos certos e contados a dedo, a coberto da minha indumentária inglesa, camuflado pelo casaco comprido e pesado, a pasta de executivo e a gravata cerimoniosa. Ela dizia que só tinha trazido uns chinelos de andar por casa. Rapariga afoita: "De resto, trouxe uns camisolões e este blusão de penas." Ar descontraído, roupas erguidas até ao pescoço, malas, mochilas e saco-cama, e roupa a mais numa cidade com aquecimento central (alguém lembrou-se de lhes dizer que aqui fazia muito frio, e os coitados mais parece que estacam a todo o momento, à espera da queda do primeiro nevão, a queda gigante de um avião, branco - coisa rara e pouco vista por terras de Londres - ). Dois turistas. Jovens, por sinal. Não diria mais de dezanove, vinte e um anos. Ele traz a voz arrastada, entramelada, simples e pouco inteligente das gentes honestas, incapazes de disfarçar a sua bondade e as suas origens. Va ga ro sa men te percorre as sílabas como quem arrasta as pernas, acorrentado aos grilhões de Broca, mas não se importa. Por detrás das lentes garrafais esconde-se do mundo, espreitado de lado num constante espanto: "Miguel, chega-te para trás que vem aí o comboio!" Na verdade, trata-se do metro. "Isto é espectacular!", diz o Miguel sem ouvir, pouco querendo saber do comboio ou do metro que da estação se aproxima. Pouco lhe importa porque, colhido pelo comboio, colhido pela cidade e pelas gentes, tão imensas, tão intensas, não percebe e só rumina, estúpido, diante do palácio. E eu com saudades de ouvir o português. O metro chega e estaciona, cheio. "Se não entrarmos, caga nisso", diz ela, imperativa. Mas entramos. E há espaço... para sardinhas em lata, mas há espaço. "Já contaste ao pessoal?", pergunta o Miguel, por debaixo do cabelinho moreno, penteado para a frente, o qual não ajuda a que tenhamos dele uma imagem séria. " Quando eles souberem, nem vão acreditar!", continua. "Não, ainda não contei.", responde ela, "Pá, mas é melhor assim. Os meus colegas estão num curso de cinco anos e vão todos sair mestres. E o pai diz que esta é uma oportunidade para aproveitar." O pai. Então são irmãos. E ela estuda. Ou está num Erasmus ou é coisa parecida. "Sim.", diz o Miguel, concordando, "E depois podes fazer um mestrado, e depois o doutoramento!" Um momento de pausa. Ambos olham em redor, tanto quanto o pescoço e a multidão, que nos comprime dentro da carruagem, permitem. "Eu não era capaz de viver assim!", afirma ela, "Não era capaz de ir assim para o trabalho, todos os dias assim! Não com esta qualidade de vida." Pois bem, obrigadinha pela parte que me toca. Pois com certeza serias, tanto quanto a falta de emprego te obrigasse, minha menina e minha jovem, e lhe garanto como no fim ainda agradeceria tal sorte... "Ao menos", diz o Miguel, "não é como Lisboa, em que tens aquelas filas todas." "Eu também não era capaz de viver em Lisboa.", diz ela, "Eu vou é para Aveiro, para fazer investigação!" (Aveiro? Investigação? Booolas! Que grande cunha, minha menina! Ou isso, ou muito ingénua. Prefiro acreditar na cunha.) Ela continua a falar: "O comboio está muito cheio, mas daqui até onde queremos são só três paragens" Na verdade eram umas oito, pelo que nos acompanhámos ainda durante largo tempo, até os putos chegarem à estação de destino, bem perto de casa. "Isto daqui a bocado já começa a vagar. Vês? Olha, Miguel, senta-te ali!" E o Miguel, de olhar vago e atarracado, com menos tomates que a irmã, mais sensível e mais cansado, não diz que não e senta-se. Efectivamente. Cria-se um fosso entre os dois e a conversa pára. Por breves instantes apenas o som da carruagem, queixando-se aos trilhos e perguntando sobre o dia e o destino em que tudo acontece e o comboio, inexoravelmente, pára e detém-se diante do fim e diante da linha, encostado a umas molas de borracha e metal, resignadas e frias durante o Inverno, quentes durante o Verão. Depois, só depois, se lembra o Miguel de dizer à irmã para lhe passar o saco-cama, aliviando-lhe o peso, as costas e a viagem, até porque todos nós sabemos quão pesado um saco-cama consegue ser! Ai Miguel, Miguel, se não gostasses da tua irmã, o que gostarias de ser? Ela chega-se: "Devíamos passar por casa a fazer umas sandes. Eu à noite faço uma sopita e não gastamos muito dinheiro. " Uma sopita. Há quanto tempo niguém me prepara uma sopita! Maternal, mulher do mundo, viaja e cozinha, sustenta o irmão e gosta dele. Ela, a irmã mais velha, ele o irmão mais novo. "E tu?, já viste tudo aqui?", pergunta ele. "Sim, já vi tudo. Estive aqui oito dias e vi os museus todos!". "Epá", responde o Miguel, "então tens me fazer o guia! Tens de me levar aquele monumento muito antigo, no sul. Umas ruínas, muito antigo, muito famoso... toda a gente conhece...". E o Miguel parou de pensar. O Miguel parou de pensar em Stonehenge. "Ontem", diz ela, mudando de conversa em jeito de desculpa por não ter respondido à dúvida do irmão, "ainda estive à espera que o Caniço saísse do trabalho, e depois fomos aquele restaurante português. O restaurante português.... e eu a perguntar-me porque me isolei tanto e porquê negar a salutar convivência com os meus conterrâneos, contemporâneos? Talvez porque a brutalidade e a mesquinhez dos mesmos sejam características mais do que suficientes para afastar qualquer um, quanto mais quando estamos à procura de uma conversa intelectualmente estimulante sobre como é por aqui viver e vir, ao invés do benfica discutir, mais o copo três bebido pela manhã, tinto, de preferência, e como se bateu na mulher à frente da filha, tudo discussões já tidas, exceptuando a parte da filha, que ainda não a fiz porque não a quero, e o que eu quero é um eusébio e muitos golos para marcar! Os dois irmãos continuam a conversar. Ele, o Miguel, está há um mês a partilhar casa com outras três pessoas. Já recebe elogios pelo asseio e pela organização. O mesmo não se pode dizer da escocesa que com ele também vive, que ainda não houve vez em que a desgraçada fizesse quanto lhe competia. São uns porcos, Miguel, são uns perfeitos javardos. Estes aqui estão mais preocupados com as nuvens do que com a mesa, a sanita ou as cadeiras. Tanto se lhes faz como se lhes deu se está sujo ou se está limpo, conquanto haja dinheiro para ganhar e um país para estremecer, desde os alicerces ao andar de topo. Mal é os gajos serem rijos, pá! Não é qualquer merda que lhes vai deitar a saúde abaixo, e assim os temos um pouco por todo o mundo. Não são como nós, fibra de peixe tolhida, colhida e torcida pelo mar verde, chumbado de sal na pele e nos ossos, já de si pouco articulados. Quebradiços. Queimados. O Miguel trouxe de Portugal quanta massa e quanto arroz pôde! Coitado, pensava morrer de fome e assim só precisava de adiccionar água. Bastava-lhe chover... Ainda lhe diz a irmã: "Soubesse a mãe que andas a carregar essas massas e o arroz...", e sorri. Soubesse a mãe dessa massa e desse arroz e de certeza que se enterneceria, tanto quanto tu, ou talvez mais, por este filho e este irmão, tão inocente e tão novo que dificilmente deixará de ser fonte de preocupação, quase tanto como é fonte de alegria, infantil, perserverante, por muitos anos por durar. Pelo menos até vir uma mulher estragar-lhe a vida...